domingo, 4 de julho de 2010

A queda


As últimas horas da seleção no mundial em África foram dos píncaros da glória aos abismos do vexame: entre o sublime, habilidoso, desconcertante (Robinho e Kaká que o digam); depois acuado, nervoso, desastrado... O mesmo time jogou como nunca e errou como sempre, só que justamente na hora em que não podia dar bobeira. Até o vilão não o foi completo: o mesmo que anotou contra nossa meta foi quem deu o passe que furou a barreira holandesa e deixou Robinho ( el estrupador de Espanã) de cara com o excelente goleiro dos Oranjes.

Acreditava muito nesse time. Não era por suas qualidades técnicas, muito menos porque sou patriota como insiste em dizer o técnico e o auxiliar da Seleção mais vitoriosa da década. Se a primeira década do século XXI foi marcada pelo domínio quase irresistível do futebol jogado por brasileiros na Europa, foi com a seleção de Dunga que essas peças começaram a ser vitoriosas também an seleção (tirando a Copa das Confederações de '05, que mais tínhamos ganho sem Dunga? Se não goleamos os EUA na final na edição do ano passado, é porque o domínio que impúnhamos ao mundo no quesito futebol, permitiu a essas equipes a explorarem nossas fraquezas e também explorar um pragmatismo ainda maior em termos táticos. O Brasil, depois de inventar o "futebol-arte", perder dois mundiais para o "futebo-força" (1982 e 1990, principalmente), assumiu uma variante entre as duas coisas: como chamaremos isso? Não sei. Sei só que é longe da cintura dura europeia (e que fez os alemães entrarem mais uma vez como franco favoritos a levar o caneco num mundial), mas também longe da molecagem vistosa mais vulnerável. Não se pode esperar que a Seleção jogue como o Santos jogou o paulista; derrota na final é eliminação.

Agora, fica bem mais fácil falar dos erros do anão mais zangado; falar mal de FM (nem escrevo o nome dele mais aqui...), do Julio César, da debilidade técnica que o time apresentou na segunda etapa... Mais difícil reconhecer que o time de Dunga era o único neste3 mundial que parecia realmente capaz de evoluir progressivamente e fazer uma final estupenda: Holanda e principalmente Espanha, não tem nada de novo a oferecer e é por isso que acho que o único time que tem alguma chance de levar o caneco para a fora da Europa (e desempatando com os europeus o 9 x 9 de títulos mundiais dos dois continentes que já venceram) é mesmo o único que sobrou: Uruguay. Depois do jogo heroico contra Gana, Uruguay está emblado; se a Holanda tem peças realmente eficientes no seu time, é um time burocrático, acanhado e sem criatividade (cortar pra dentro e bater? Isso não é habilidade, ainda mais se comparado com o que Robinho fez com a coluna de três defensores anteontem). Já os alemães, depois do passeio sobre uma Argentina vergonhosa, pega a maior incógnita do mundial: a España.

Sim, eles não jogaram nada até agora. O Paraguay se jogasse um pouquinho mais, despachava-os de volta pra casa sem dó; e perder pênlati, francamente, não dá. A arbitragem, aliás, destas quartas foi um pouco melhor, mas ainda assim influenciou no resultado de pelo menos dois jogos diretamente (no jogo da seleção e no de ontem, entre a albirroja e a fúria na volta da cobrança); já no jogo entre os alemães e argentinos e uruguayos e ganenses, arbitragem sem retoques (e olha que era um uzbeque quem apitava o jogo mais tradicional das copas...). É preciso diminuir o poder de decisão de um único ser em campo: o juiz não deve ser Deus e sim, deve ter instrumentos para que auxilie a que o futebol mesmo faça a diferença, não a malandragem ou até mesmo a miopia dos auxiliares. Dizer que isso retira a emoção é uma falácia que um dia temos de discutir neste espaço.

De resto, parabéns aos semifinalistas: exceto a Holanda, todos mereceram estar onde estão neste momento e esse mundial, que começou morno, se encaminha para uma reta final emocionante e regada a muita tradição, ineditismos e aqueles tabus que só fazem as disputa adquirir um diferencial e uma cor. Não esperava menos do primeiro mundial no solo que foi a mãe de todas as nações e que foi durante tanto tempo esquecido; ver um país como a África do Sul dar esse show de organização, pontualidade e alegria (e vuvuzelas, claro), depois de tantas tragédias e uma história de intolerância e violência sem precedentes, é algo que me emociona. Viva os charrúas!